A paz é uma miragem?

Conflitos estão em declínio em todo o mundo, mas novas tensões ainda eclodem

China - North Korea

Em Seul, sul-coreanos observam na TV teste de míssil balístico pelo vizinho do Norte – Lee Jin-man / AP/4-7-2017

Nicolás Maduro prosseguiu com a Assembleia Nacional Constituinte que pode escalar a violência no país, reavivando o fantasma dos conflitos civis na América Latina. A Coreia do Norte voltou a ameaçar o mundo com testes de mísseis de longo alcance capazes de enviar armas nucleares aos EUA, que protagonizam com Rússia uma versão atualizada da Guerra Fria na Síria. Nova onda de violência aparta ainda mais israelenses e palestinos, e aproxima-os de outra guerra. Um milhão de pessoas fugiram do Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, fruto de lutas anteriores.

A paz é uma miragem? Perguntei isso ao antropólogo americano William Ury, especialista em negociação de conflitos, quando o entrevistei sobre Venezuela. Volto a ele porque, na véspera da Constituinte, Ury ainda confiava que Maduro recuaria, optando por uma saída pacífica para a crise, “herdeira” de outra, que ele ajudou a mediar entre Hugo Chávez e a oposição há 15 anos.

Ury permanece curiosamente otimista. “Temos Venezuela, mas temos também Colômbia. Seis anos de negociações acabaram com uma guerra de 50 anos, em que todos já tinham perdido a esperança. Quando começamos, me diziam que havia 1% de chance de chegar a um acordo. O que você faz com isso? Você começa a trabalhar com este 1%. Quem eles podem influenciar? Quem os apoiaria? Constrói-se essa rede de proteção e, quando ela está robusta, você traz para esse ambiente as partes conflitantes. Na África do Sul, bastou um Mandela para dar início ao que antes era impensável.”

No século passado, tensões nos Bálcãs levaram à Primeira Guerra, que levou à Segunda Guerra, que levou à Guerra Fria, que espalhou conflitos através dos continentes. Um levantamento, do início deste século, calcula que o fim das guerras proxy entre EUA e União Soviética em América Latina, Ásia e África levaram à queda de 40% dos conflitos mundiais.

“Não há guerras na América Latina hoje”, ele diz. “De fato, os conflitos estão em declínio em todo o mundo.” A ver. Nos anos 1990, a década do genocídio em Ruanda, três quartos das mortes em confrontos no mundo se deram na África. As condições em Sudão do Sul, República Democrática do Congo e Somália são desdobramentos destes conflitos, assim como o Afeganistão ainda vive ecos da invasão soviética nos anos 1980, que levou à guerra civil, à ascensão do Talibã e da al-Qaeda, ao 11 de Setembro, à invasão americana em 2001. Hoje, acidentes de carros e más condições sanitárias matam mais do que as guerras.

Neste século, a África viu mais guerras terminarem do que começarem, e na Ásia elas deram lugar ao boom econômico de China, Coreia do Sul, Japão, Taiwan. A Coreia do Norte é uma ameaça real e maior à paz do que era, mas não mais assustadora do que a crise dos mísseis de Cuba, quando EUA e União Soviética chegaram mais perto de uma guerra nuclear, ou os testes com mísseis atômicos da China, em 1966 — o último teste nuclear chinês foi há 20 anos.

Por outro lado, a ocupação da Crimeia, em 2014, primeira anexação territorial na Europa desde 1945, e a volta da Rússia como ator relevante no palco internacional, com a entrada na Síria, ressuscitaram velhos fantasmas. Os EUA aprofundaram o envolvimento no Oriente Médio, em parte para garantir recursos diante da ameaça econômica chinesa. Ambos aprimoraram a tecnologia nuclear, segundo o Stockholm International Peace Research Institute.

No início de julho, dois terços dos países-membros da ONU aprovaram o texto do Tratado de Proibição de Armas Nucleares, que será aberto à adesão durante a Assembleia Geral, em setembro. Como esperado, nove países detentores de armas nucleares boicotaram as negociações, sob justificativa da ameaça norte-coreana e de outros países que não aderiram ao tratado anterior, de não proliferação. Simbolicamente, no entanto, é a primeira vez em 70 anos de negociações, iniciadas no rastro dos ataques americanos a Hiroshima e Nagasaki, em que a maioria dos países concorda sobre a única solução para tal ameaça: abolir por completo as armas nucleares. E eles são mais do que o 1% que Ury menciona.

“O problema é que as pessoas enxergam a paz como um objetivo”, acredita Ury, que está no Brasil para o lançamento do livro “O Caminho de Abraão”. “A paz não é um objetivo, mas um processo.” Ou seja, não é uma miragem nem um oásis, mas o esforço constante da travessia no deserto.


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