William Ury: “Uma história pode resolver conflitos”

O especialista de Harvard em negociações de paz diz que o exemplo do patriarca Abraão pode ser o caminho da conciliação no Oriente Médio

Há 30 anos, o Antropólogo William Ury, de 57, medeia negociações nos cenários mais conturbados do mundo – Afeganistão, Tchetchênia e Bálcãs, para citar alguns. Fundador do Programa de Negociação da Universidade Harvard, ele tenta pacificar o Oriente Médio

Há 30 anos, o antropólogo americano William Ury, de 57, medeia negociações nos cenários mais conturbados do mundo – Afeganistão, Tchetchênia e Bálcãs, para citar alguns. Fundador do Programa de Negociação da Universidade Harvard, ele tenta pacificar o Oriente Médio usando o exemplo de Abraão. Figura comum às três grandes religiões da região, Abraão é patriarca do judaísmo e do cristianismo e importante profeta do islamismo. Ury criou, em 2008, uma ONG, chamada Caminho de Abraão, para demarcar uma rota de peregrinação que parte do local de nascimento do profeta, na Turquia, passa por Líbano, Síria e Jordânia, até chegar a seu túmulo, na Cisjordânia. Quatro mil pessoas já fizeram o trajeto, agora interrompido pela guerra civil na Síria.

Ury não desiste. “O caminho já presenciou muitos conflitos e continuará lá durante muito tempo”, disse a ÉPOCA. Em São Paulo, ele divulgará o projeto e participará da 4ª Corrida da Amizade, cujo trajeto passa por pontos da cidade ligados às comunidades árabe e judaica.

ÉPOCA – O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi acusado de ter agido de maneira “muito calma” em relação aos ataques contra embaixadas americanas. A reação dele foi adequada?

William Ury – Um erro clássico em negociação é pensar que ser brando em relação às pessoas é ser brando em relação ao problema. O erro oposto é pensar que, para ter uma abordagem dura em relação ao problema, é preciso ser duro com as pessoas. O que os negociadores bem-sucedidos fazem é separar as pessoas do problema para que, ao mesmo tempo, possam ser calmos com as pessoas enquanto se mantêm duros em relação ao problema. A reação do presidente Obama foi exatamente essa. Numa situação muito difícil, mostrou respeito ao islã como uma das maiores religiões do mundo, ao mesmo tempo que se manteve duro em sua condenação contra a intolerância e a violência.

ÉPOCA – O senhor cita o exemplo de Abraão, uma figura central para cristãos, judeus e muçulmanos, como o primeiro passo para a solução dos conflitos do Oriente Médio. Por quê?

Ury – Depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, houve muito medo em relação à eclosão de um conflito, não só no Oriente Médio, mas entre o mundo ocidental e o mundo islâmico, com milhões de pessoas e armas nucleares de cada lado. Percebi que esses conflitos tinham a ver com identidade. Então, começamos a olhar para a história de Abraão, compartilhada pelas três religiões majoritárias na região: islamismo, cristianismo e judaísmo. Quatro bilhões de pessoas compartilham sua história. Ela nos lembra que somos todos parte da mesma família, a família humana. O simbolismo de Abraão não fala apenas de uma única família. Sua lição básica é o espírito de hospitalidade. Abraão recebe estranhos e demonstra gentileza em relação a eles. Seguir os passos de Abraão permitiria às pessoas criar um senso de identidade e prosperidade compartilhada. Alguns conflitos são tão difíceis que apenas uma história pode resolvê-los. E a história mais compartilhada no planeta hoje é de Abraão.

ÉPOCA – A passagem pelo Caminho de Abraão não foi comprometida pela guerra civil na Síria?

Ury – Infelizmente, tivemos de suspender o trabalho que estávamos realizando na Síria. O país tem uma das partes mais bonitas do caminho. Já ouvi de pessoas que vivem em vilarejos, de estudiosos e religiosos que todos aguardam ansiosamente a possibilidade de trabalhar no caminho no futuro. Demorará um pouco, mas o caminho está lá há 4 mil anos. Já presenciou muitos conflitos e continuará lá durante muito tempo.

ÉPOCA – Em relação à logística do caminho, como funciona o trabalho da sua ONG?

Ury – Nosso trabalho é tornar o caminho real, apesar de ele existir há milhares de anos. Nós estamos mapeando o trajeto com GPS, escrevendo um guia turístico e criando um portal online com toda a informação necessária para alguém que vá percorrê-lo. Nós também trabalhamos com organizações locais de cada país, que estão encarregadas de construir o caminho em termos de infra-estrutura. Nós os ajudamos a conseguir fundos. O que chama atenção é que as pessoas que vivem ao longo do caminho já estão começando a ter um retorno econômico. O que mais ouvimos de moradores ao longo do trajeto é: “Por favor, tragam mais visitantes”. O caminho gerou renda em vilarejos que vivem basicamente na pobreza e onde o impacto de turistas é muito grande. Ainda mais importante é o fato de esses moradores amarem receber visitas e mostrar sua herança cultural, o que é um sinal de respeito. Esses moradores sentem frequentemente que o mundo os vê apenas por estereótipos, como perigosos. O aspecto mais importante do caminho é essa criação de respeito mútuo, de reconhecer o próximo como ser humano mesmo em meio a um conflito.
No momento, o local mais forte do projeto é na Turquia, onde o caminho está se desenvolvendo. São 100 km já disponíveis para o público, com um trajeto lindo de percorrer, vilarejos adoráveis, muita herança histórica e arqueológica, algumas das cidades mais antigas do mundo. E talvez o local onde o caminho já esteja mais desenvolvido, o que costuma surpreender as pessoas, é na Palestina, onde há mais de 120 km que os palestinos desenvolveram para receber viajantes.

ÉPOCA – O senhor cita a União Europeia como o máximo exemplo da possibilidade de paz e integração. Mas o bloco não passa por uma crise que ameaça sua própria existência?

Ury – Sim, a Europa passa por uma crise profunda no momento, mas tudo precisa ser colocado em perspectiva. Quando você se engaja num projeto como esse, o objetivo não é acabar com os conflitos. O conflito é algo natural, sempre existirá. O objetivo é a transformação do conflito – de formas destrutivas, como a violência e a guerra, para formas construtivas, como a democracia, o debate, ações não violentas. O que está acontecendo na Europa é o exemplo perfeito disso. Há 100 anos, as diferenças e animosidades vistas hoje levariam à guerra. No momento, é impensável que a Alemanha entre em guerra com a Grécia por causa de seus problemas. Essa foi a mudança de mentalidade. Isso é um enorme sinal de progresso. Se pudermos ter isso no Oriente Médio, com quaisquer rusgas que existam, será um enorme passo.

ÉPOCA – Nelson Mandela é um de seus maiores exemplos de negociador. Ele admite que seu tempo na prisão o fez aprender a controlar seu próprio temperamento e entender melhor seus adversários. Nesse sentido, bons negociadores não nascem feitos, precisam trabalhar para sê-lo. Seu trabalho em Harvard tem a ver com isso?

Ury –Bons negociadores aprendem a ser assim. Quando eu comecei a trabalhar em Harvard no programa de negociação, há mais de 30 anos, quase não havia cursos de negociação. As pessoas pensavam que negociar era algo que não se aprendia. Mandela aprendeu na prisão uma característica chave para ser um bom negociador: a habilidade de “ir para a varanda”, como costumo dizer. Em outras palavras, a habilidade de não reagir imediatamente, emocionalmente durante um debate. Quando furioso, você fará o melhor discurso do qual irá se arrepender. O que Mandela aprendeu foi que antes de você influenciar alguém, você precisa influenciar a si mesmo, é preciso dominar a si mesmo. Essa é a habilidade que lhe permite ser bem sucedido numa negociação e é algo que você pode aprender.

ÉPOCA – O que o senhor chama de “terceiro lado” numa negociação?

Ury – Num conflito, sempre existem dois lados. Há os árabes e os israelenses, o sindicato e a empresa, o marido e a mulher. Mas sempre existe o terceiro lado, a comunidade que cerca esses elementos. Os amigos, as testemunhas. O terceiro lado encoraja as duas partes a sentar, a encontrar uma solução melhor. É como um amortecedor que absorve a tensão do conflito e a transforma em algo diferente.

ÉPOCA – Pensando nesses termos, as Nações Unidas deveriam exercer o papel de “terceiro lado universal”. O senhor acredita que a ONU cumpre seu papel satisfatoriamente?

Ury – A ONU fez uma série de coisas maravilhosas e tem muito ainda o que fazer. A ideia de uma entidade global onde todos estão representados está ainda em sua infância, as Nações Unidas existem desde apenas o fim da Segunda Guerra. Nós ainda estamos aprendendo como fazer isso. A ONU conquistou muita coisa e tem ainda muito que conquistar. Não só as Nações Unidas, mas a comunidade internacional, a voz democrática comunitária internacional da humanidade. Essa voz precisa ser amplificada.

ÉPOCA – Mas esse “terceiro lado” realmente existe? Numa negociação, os mediadores também costumam estar comprometidos.

Ury – A neutralidade é muito difícil de encontrar, porque, como você mencionou, todos têm interesses. Mas o terceiro lado não precisa ser necessariamente neutro. Nelson Mandela foi um líder do terceiro lado e estava longe de ser neutro. O terceiro lado significa estar advogando pelos interesses de todos. É vital numa negociação que você seja aceito e tenha a confiança dos dois lados para exercer o papel do terceiro lado. Se você não é aceito ou não tem a confiança de um dos lados, não conseguirá se estabelecer como mediador. Essa é uma das questões nas quais o Brasil tem um papel a desempenhar, porque é um país respeitado, bem-visto em muitas partes do mundo.

ÉPOCA – Os esforços diplomáticos brasileiros de mediação normalmente não são levados a sério por Estados Unidos e União Europeia, como se viu na tentativa de acordo nuclear com o Irã.

Ury – O episódio do Irã foi uma oportunidade perdida. Poderíamos ter caminhado rumo a uma direção mais positiva, mais construtiva na resolução do conflito. Mas isso foi apenas o começo. O Brasil está entrando agora nessa arena. Claro que haverá sucessos, falhas, lições aprendidas, e assim por diante. Tenho a sensação de que o Brasil se tornará cada vez mais um ator representativo, e esse é um papel muito importante para o país desempenhar. O Brasil é um exemplo de coexistência entre povos e religiões, algo que não ocorre em outras partes do mundo. Pode desempenhar esse papel de inspiração e modelo e também de mediador, como a terceira parte. A cultura brasileira se presta, de certa maneira, a certo tipo de flexibilidade necessária a esse tipo de diplomacia de que o mundo realmente precisa, a diplomacia do terceiro lado.

ÉPOCA – O que falta ao Brasil?

Ury – O Brasil se beneficiaria muito caso se tornasse um centro de treinamento, aprendizado e estudo de negociação. Há muita atenção dirigida para o país. É uma questão de o Brasil encontrar seu papel de liderança, o que pode ocorrer com os próximos grandes eventos, a Copa do Mundo e a Olimpíada. Eles serão a oportunidade para o Brasil mostrar sua habilidade de soft power (a capacidade de um Estado de influenciar outros pela cultura ou pela ideologia) para comunicar os aspectos positivos da cultura brasileira de uma maneira que o mundo possa seguir. Um exemplo seria por meio do futebol brasileiro, incrivelmente popular. Durante o tempo que passei no Oriente Médio, pude ver crianças de pequenos vilarejos palestinos usando camisetas com as cores do Brasil. Em Israel, também. Seria incrível isso ser usado como ferramenta diplomática. Adoraria ver jogadores brasileiros andando no Caminho de Abraão. Eles chamariam a atenção para a questão, e seria um jeito diferente de interação com o conflito no Oriente Médio.

ÉPOCA – Como surgiu a ideia da corrida em São Paulo?

Ury – A intenção é celebrar o sucesso brasileiro em integrar culturas e credos em conflito em outros locais do mundo, como árabes e judeus, mas que, em São Paulo, vivem juntos, trabalham juntos. É uma forma de inspirar as pessoas.


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